No interior das Minas Gerais – no tempo em que ainda se falava assim o nome daquelas terras – um experiente e solitário caipira vivia sua vida em função da sua granja. Benedito dos Santos, ou “seu” Benedito, era o que hoje chamaríamos de pessoa vocacionada, tamanha era a dedicação e cuidado com aquelas galinhas.
E como a fama de Seu Benedito ia longe! Todos fazendeiros da região sabiam que não era possível ter mais produção de ovos que as galinhas do Benedito. E claro que, com o passar do tempo, tentavam descobrir o motivo, o “segredo” que fazia das galinhas dele serem mais botadeiras que todas as outras da região.
O dia a dia da granja de Benedito era comum, igual a rotina de todas as outras da região. Ou quase igual… o milho, a luz, o terreiro, a cerca, a palha… Mas naquela granja havia uma revolução tecnológica imprescindível e improvável: um rádio!
Logo ao despertar – junto com o canto do Galo Marquês (bicho preferido na roça tem nome e até ganha enterro com missa em latim) – Benedito ligava seu rádio valvulado Flips (como chamavam os aparelhos Philips, na época ainda importados da Holanda). O aparelho ficava estrategicamente posicionado em frente ao galinheiro. Benedito dizia aos quatro ventos que era a música – e somente a música – que fazia suas galinhas colocarem mais ovos que as outras.
Nos anos 50 um novo estilo de música tomou o mundo de assalto – o Rock and Roll. Era um estilo vibrante e animado. Benedito não gostava tanto assim, achava barulhento em comparação com suas serestas preferidas. Mas o fato é que se percebia a animação de todas galinhas quando ele sintonizava a estação que tocava os sucessos de Buddy Guy, Little Richard, Chuck Berry e de um tal de Elvis.
O rádio do Seu Benedito era colocado no último volume para satisfazer o desejo de música jovem das galinhas. Ficava uma verdadeira chacrinha – de um lado o tal rei do rebolado gritando e do outro as galinhas cacarejando e colocando muitos ovos. Na fofoca os vizinhos de Benedito diziam que suas galinhas tinham um cacarejar meio rouco, parecido com as vozes distorcidas que saíam das cancões que elas tanto gostavam. O galo Marquês então… diziam até que o bicho era meio“endemoniado” com aquele canto matinal pesado e grave.
Com o passar do tempo as coisas foram melhorando e Benedito foi juntando um dinheirinho. Ele achou então que era hora de trocar aquele velho e surrado rádio valvulado “Flips” por um novo, mais potente e moderno modelo transistorizado. Qual foi a surpresa do caipira ao ver que as galinhas perderam o gosto pela música e estavam colocando até menos ovos que as demais da região! O som estava mais alto, mais bonito e limpo, e ainda assim elas não gostavam. O rock and roll não era mais o mesmo naquele novo rádio.
Sem entender bem o motivo, Seu Benedito devolveu o rádio transistorizado para a loja e tornou a ligar seu velho radinho valvulado – para a alegria de todas as galinhas da granja.
A granja do seu Benedito já não existe faz tempo, mas ainda se diz que muitos cantores de sertanejo raiz daquelas bandas fizeram sucesso justamente por comerem os ovos daquela granja, daquelas mesmas galinhas vidradas no rock and roll. Existe inclusive uma história que Benedito exportou muitos ovos para outros países, a pedido de alguns cantores gringos – a fama dos ovos e da voz potente e rouca que favoreciam correu o mundo!
Hoje em dia o consumo de ovos tem controvérsias em relação ao seus efeitos no controle do colesterol e doenças cardíacas, entre outras questões de saúde e bem estar. Mas ainda ninguém conseguiu provar a ligação dos ovos da granja do Benedito com a potência e timbre das vozes daqueles cantores e cantoras…Mas também não conseguiram provar que não existia!
